Domingo, 4 de Junho de 2006 (Culto Vespertino)
Quando sentimos ansiedadeNa semana passada estivemos conversando sobre a questão do medo. Vimos que esse sentimento é primário e foi introduzido desde o primeiro momento após a queda do homem. O medo é fundamentado na percepção do perigo, e o medo existencial é o medo do próprio Deus criador. Essa desconfiança de que Deus nos fará mal permanece evidenciada na nossa dificuldade imensa de se entregar nessa relação amorosa, uma relação que exige a vivência da misericórdia e da graça divina.
Agora, passemos a refletir sobre a ansiedade, que é um parente próximo do medo. Trata-se da percepção de um perigo mais subjetivo e abstrato. O estado de ansiedade é maçado por uma "excitação da mente"1, uma aceleração do pensamento, e em conseqüência, uma dificuldade de concentração e satisfação com o presente. A ansiedade tem essa relação com o futuro, com o terrível-não-acontecido. Ansiamo-nos pela falta de controle. Nossas tentativas de controlar o rumo da vida sempre se deparam com uma imensidão de variáveis que geram essa sensação da limitação. Nossa geração é ansiosa, porque tem esse falso conceito de que é possível se cercar com o planejamento estratégico da própria vida. O legado do racionalismo do século XVII deixou-nos a falsa certeza de que o intelecto humano pode trazer o conhecimento de todo o universo, entretanto, a vida é como um barco procurando rumo num mar de variáveis. Não que sejamos contra o controle responsável e planejamento, mas evidenciamos os limites do controle humano sobre a vida. Diz Jesus: “quem poderá acrescentar um côvado sequer em sua vida?”. Enfim, o estado ansioso é esse estado de excitação do pensamento. A necessidade de controlar o futuro e sua conseqüente percepção da impossibilidade de tal feita, determina um estado de apreensão, de medo de algo terrível aconteça ou de que o bem desejado não se realize. Dessa forma, um estado de atenção permanente impede o descanso e relaxamento, impedindo a pessoa de viver tranqüilamente a vida que ele tem. Trata-se, adicionalmente, de um sentimento sempre de falta e insatisfação. A ansiedade é uma sede, uma fome sem fim, insaciável por natureza. E quanto mais se busca cercar-se de certeza, mais insegurança surge.
A palavra grega me,rimna expressa bem esse estado de pensamento acelerado. Tem o significado de "ser lançado à diferentes direções". Sua raiz tem a conotação de partir, dividir, desconcentrar. Portanto, a definição de ansiedade em nosso uso moderno reflete bem a palavra grega usada no NT. Assim, quando essa palavra surge no NT, que princípios podemos aprender sobre a ansiedade?
Viva o hoje. Capacidade de viver o hoje
Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal. - Mateus 6:34
Tomás de Aquino, conceito de justo meio-termo: "O prazer está no ser, não no vir-a-ser".
Viver o presente é desfrutar a vida com gratidão. É viver com intensidade cada momento, experimentando o que a fase
atual lhe oferece. É olhar para o Deus lhe dá e sentir gratidão. É um estado de gratidão para com a vida.
É diferente do imediatismo que tem sua raiz na incapacidade de esperar, postergar o desejo (hedonismo). Do artigo
acadêmico – "transição da modernidade para a pos-modernidade" Pesquisa sobre o uso de celulares na faixa etária, 18-25,
universitários. Característica da pós-modernidade, o imediatismo. "o seu desejo de contato com os outros devem ser
imediatamente satisfeito"
Viva o outro. Transcendendo a si mesmo (anselm grün: eu-tu, encontro)
...lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós. - 1 Pedro 5:7
Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida? - Mateus 6:27
Movimento da modernidade é a de subjetividade, isolamento do sujeito enquanto ser pensante e totalmente autônomo
na busca de seu melhor viver e ser. O alcance de uma vida de felicidade e liberdade depende da capacidade interna
do homem. Não há espaço para o exterior, o outro, no desenvolvimento de uma vida plena. Daí surge a autonomia do
indivíduo em todas as áreas. Auto-nomus, do latim que significa fazer sua própria lei; auto-satisfação, auto-realização,
auto-humanização. São palavras que conclamam a independência do homem. Contudo, o cristianismo segue a gramática da
Trindade: alter-significação/identidade. O encontro é essencial na construção da pessoa. Essa identificação que lhe
dá sentido à vida não se baseia no encontro consigo-mesmo, mas é um eu-tu2. Na auto-realização, as relações são
transformadas em ferramentas de construção do meu próprios desejos e anseios, mas viver o outro é ouvir e perceber
o outro pelo que ele é, e nada mais, sem utilitarismos. Nossa sociedade pragmática tende a ver a relação como um
instrumento do alcance do próprio sucesso. Dizemos livremente que “uma mão lava a outra”. Nossos movimentos em direção
ao outro sempre esperam o pagamento justo pelo esforço depreendido. Na sociedade atual, o ouvir é algo raro, pois ouvir
o outro é esquecer-se de si por um momento, dando a atenção para o outro, enquanto ele fala. Isso é raro! Mas Deus é esse
Pai bondoso que entra em intimidade e nos ouve, fazendo calar todo o barulho do universo para nos ouvir. Somos admiráveis
e particulares a Ele, diz o Salmo 139.
Viva o mais importante. Redimensionado os valores
A que caiu entre espinhos são os que ouviram e, no decorrer dos dias, foram sufocados com os cuidados, riquezas e deleites da vida; os seus frutos não chegam a amadurecer.
- Lucas 8:14 (Merimnao traduzido como "preocupações da vida")
Paulo diz aos de Corínto: "O mais importante é o amor". Enquanto a vida estiver direcionada para aquisição de
coisas materiais, e status, não existe como viver além da ansiedade. O pensamento se acelera na busca pelo que
falta. Viver o mais importante, é viver nas relações de amor, dentro da gramática trinitária de se envolver e
se envolvido.
Ativismo bem intencionado
Respondeu-lhe o Senhor: Marta! Marta! Andas inquieta e te preocupas com muitas coisas. Entretanto, pouco é
necessário ou mesmo uma só coisa; Maria, pois, escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada. - Lucas 10:41-42
Uma variante dessa questão de valores é o ativismo bem intencionado. Muitos dizem que se o alvo da ambição é bom, então
a ansiedade é justificada. Ledo engano. Marta tem essa personalidade agitada e ansiosa. Sua ação não é fruto da graça,
mas do dever e da recompensa. Sua intenção pode ser boa, servir a Cristo, mas assim mesmo recebe a advertência sábia
de Jesus que pontua seu estado divido, desfocado, espalhado. Jesus diz não ao ativismo bem intencionado.
Enfim, tudo que nos desconcentra da vida, que tira o nosso foca das coisas mais importantes é o que nos anseia. Ansiedade, como o cuidado preocupado do que não se tem controle é algo que nos desumaniza. A vida abundante é aquele que entra no aprisco do Pastor, e desfruta das verdes pastagens das águas tranqüilas.
A oração é esse encontro com o Outro, é o lugar de transcendência de si. Na oração, nos expomos àqueles que nos ouve completamente. Nos perdemos na oração para sermos encontrados. Ao sermos encontrados nesse encontro com Deus, vamos para os relacionamentos para encontrar pessoas, para nos perder novamente quando ouvimos, esquecendo de nós mesmos, dando-se ao encontro com o outro, possibilitando a verdadeira intimidade.
Assim caminhamos, na contra-cultura dos ditames ansiosos, vivendo o hoje, vivendo o outro, vivendo o mais importante.
1Do artigo sobre ansiedade, Efraim, IsaacEsta mensagens está disponível em CD para empréstimo, na biblioteca da igreja.
Veja também:
- Mensagem de 04 de Junho de 2006 (Matutino).
- Mensagem de 11 de Junho de 2006.
- Outras Mensagens de Junho de 2006.
- Outras Mensagens de Daniel Fujisaka.