Mensagens/Junho de 2008

Domingo, 01 de Junho de 2008 (Culto Matutino)

A Vida como Oração

Daniel Fujisaka

Filipenses 4:4

Existe uma impossibilidade evidente nas palavras do apóstolo Paulo quando ele nos ordena “orai sem cessar”, pois, partindo do nosso entendimento de que a oração necessita de um modo específico de ser, ou seja, um espaço, um tempo, uma postura: olhos fechados, ajoelhados, cabeça abaixada e outras formas que cada um aprendeu, a oração ininterrupta é impossível. Não por acaso, como veremos, o mandamento que acompanha o “orai sem cessar” é o “alegrai-vos sempre” (1 Ts 5.17; Fp 4:4), que também é um grande dilema, visto que no modo comum de entender a alegria, esta não convive com angústias e tristezas. Dessa maneira, o sofrimento torna-se quase uma sina determinista que deve ser encarada com positividade e simplismo. É triste quando percebemos cristãos bem intencionados que não têm um bíblico entendimento de oração e de alegria. Para estes, a sensação, ao final, penderá para a culpa falsa e frustração, pois como estar em perpétua oração se a vida continua em seu afazeres, e como estar em constante alegria se muitas situações inevitavelmente entristecem? Portanto, a oração como vida não poderá acontecer num modo específico de orar, que, aliás, apresenta suas características de acordo com o contexto cultura de cada um. Então, quando nos deparamos com um mandamento aparentemente impossível como “orai sem cessar e alegrai-vos sempre”, devemos examiná-los profundamente com ‘temor e tremor’ à luz das Escrituras.

Pelas Escrituras, sabemos que todos os mandamentos derivam de um único e essencial mandamento conforme as palavras de Jesus Cristo, Evangelho de Mateus 22. 40, em que Jesus retoma os escritos da Lei, chamada torá em hebraico, palavra melhor traduzida como instrução para o bem viver (Dt. 6.1-10). As instruções, portanto, são direções para que homens e mulheres possam cumprir o propósito de se alegrar em Deus glorificando-o através de suas vidas inteiramente entregues em amor e em confiança. “Orai sem cessar”, portanto, tem haver com a declaração existencial, em todas as dimensões da vida, a saber, nas vontades, pensamentos e ações, de que o “SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR” (Dt. 6.4). Não se trata de falar duas ou três vezes ao dia essas palavras como uma oração decorada. Trata-se, essencialmente, de viver (pensamento, vontade e ação) essa declaração! Por essa razão, a oração que não cessa não é um modo de vida, mas é a própria vida. Logo, não deveremos buscar uma vida de oração, mas viver como oração. Obviamente a vida como oração também passará pelo momento e pelo espaço da oração, assim como a vida do homem-adão antes da queda que vivia como oração ininterrupta e também esperava a viração do dia para falar com Deus.

Segundo, a vida como oração não será possível, conforme a torá (instrução de Deus para o bem viver), se não houver inteireza de vida, ou na imagem hebraica, se não amarmos a Deus de todo o coração. O coração que ama a Deus é o homem integrado em todas as suas dimensões: vontade, pensamento e ação. Desde a queda, o homem anda pela vida de forma fragmentada, dando maior importância para um elemento da vida em detrimento de outro. Há quem diga que o conhecimento de Deus se dá através pelo entendimento da Palavra, outros dizem que se dá através de uma experiência emocional com o sobrenatural; outros ainda dizem que o conhecimento de Deus se dá no serviço. Essas ênfases todas só demonstram o quão fragmentados estamos em nossa antropologia, visão de homem, gerando uma aproximação de Deus igualmente fragmentada e reduzida. Conseqüentemente, na experiência da oração, acabamos por não expressar a Deus nossos mais profundos pensamentos e vontades. As vontades permanecem não conectadas com os sentimentos, de maneira que não temos consciência das vontades mais profundas do nosso ser, e por isso, não nos apresentamos inteiros, de coração, a Deus. Dessa forma, o agir torna-se por vezes uma disciplina racional e desconectada dos desejos e da reflexão.

Finalmente, aquele que ora sem cessar, que como vimos à luz da Palavra é ao final viver como oração, está descansado naquele que nos criou e nos amou, “nosso Deus, o único SENHOR!” Para este a alegria não é uma simples disciplina, mas uma ação voluntária e coerente.

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