Mensagens/Junho de 2008

Domingo, 15 de Junho de 2008 (Culto Matutino)

Trindade e Amizade – Liberdade e Altruísmo

Daniel Fujisaka

Gênesis 1:27; João 15:15; Filipenses 2:4-11

Uma outra forma de referir-se à Trindade é vê-la como eterna amizade entre Deus Pai, o Filho e o Espírito que estão, sempre estiveram, e estarão eternamente em amizade. Tal amizade é completa e totalmente perfeita de modo que na comunhão entre as pessoas divinas da trindade não se precisa de nenhuma outra comunhão além da sua própria relação trinitária. Por esta razão que dizemos que a intenção do Criador ao formar o mundo do nada – ex nihilo – permanece um mistério, pois o homem só concebe um criador que só cria quando este necessita do ser criado, o que não pode ser assim na relação Deus Triúno e criação. É nesse sentido que ao contemplarmos a criação, a nossa própria, somos lançados para dentro de um mistério gracioso. Ouvimos o convite a uma relação sem retribuições, sem meritocracias, na qual Deus se revela como amigo (João 15:15). Em Jesus a amizade com Deus se revela em toda a plenitude, mas a amizade com Deus tem sua referência na própria criação, pois fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Então, se o Deus Triúno é eterna amizade, quando somos criados à sua semelhança, somos também criados para uma eterna amizade com Deus e com o outro.

Essa amizade, por definição, só é possível no exercício do amor, da escolha livre e sem dominação. Não existe amizade se não se possibilita a escolha. Escolhemos ser amigos ou não. Por essa razão que Jesus diz aos seus discípulos: “já não sois servos, porque estes não sabem o que senhor faz, mas amigos porque lhes foi dado a conhecer o Pai”. O amor de amigos, chamado phileo em grego, denota uma relação de semelhança e igualdade, e por essa mesma razão é estonteante que Deus nos chame a sermos amigos, pois está claro que não somos iguais, estamos longe de nos aproximarmos de sua total pureza e santidade. Se Deus fosse seletivo em suas amizades, ou seja, se ele se abrisse para amizades somente com aqueles que são mais semelhantes, a amizade com o homem seria impossível. Assim, a possibilidade de sermos de novo amigos de Deus só poderia acontecer numa relação invertida da criação: Deus se fazendo semelhante ao homem. Na criação fomos feitos à sua semelhança de Deus para sermos seus amigos, mas pela queda fomos afastados e a imagem de Deus no homem caído está opaca e ofuscada. Agora, Em Jesus Cristo, Deus se faz semelhante ao homem. Porque? Porque Deus continua no seu firme propósito de ser amigo do homem. Eis a fidelidade do amor phileo que acontece numa livre escolha pelo ser amado a despeito de todas dores e sofrimentos que poderão, e certamente virão, acontecer. A amizade se dá no desnudamento mútuo dos amigos. A intimidade da amizade verdadeira se dá na livre escolha de se desnudar na presença do amigo. Jesus diz que “conhecemos o Pai por seu intermédio”, e por isso somos chamados de amigos, pois o Pai se desnuda através do Filho enviado.

Nossas amizades estão permeadas pelo desejo de dominação e as cobranças retributivas e utilitárias vão minando a essência da amizade. A tragédia se dá quando esposo e a esposa já não são amigos, quando amigos dominam outros amigos, quando pais não criam seus filhos para serem seus amigos, mas criam para serem sucessos profissionais. Colocamos a amizade sob condição da semelhança a nós mesmos, quando conformamos o outro aos nossos interesses, sonhos e desejos. Isso é terrível! Por mais altruísta que possa parecer, não é! Já ouvimos frase assim: “mas eu quero o seu bem...”. Ledo engano. Não se constrói amizades pelas intenções pessoais – mesmo que pareçam boas intenções. Deus faz o contrário para ser nosso amigo ao se fazer semelhante a nós, reconhecido em figura humana, segundo o cântico entoado pelos antigos da igreja primitiva (Filipenses 2:7-11). Sermos à semelhança Deus será uma escolha livre fruto dos afetos e da confiança na divindade e bondade do Deus Triúno.

A Trindade resgata a essência da amizade: liberdade e altruísmo. Convida-nos a sermos como ele que não se isolou na sua santidade, mas pela graça se fez semelhança ao pecador para ser amigo deste pecador, eu e você.

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